Território baiano, povo descolado, povo que vive o hoje. Acordam cedo. Terra onde o côco encontra com o mar, onde até os cachorros nadam. O peixe é fresco. Terra que dispenso comentário, mostro as fotos. Mas um detalhe quero me ater. É impressionante a familiaridade do povo itacareense com o rio. Usam rabetas (canoa formada por um tronco de árvore. Até que o gui me falou o nome da árvore, mas quem disse que eu lembro). Crianças saem pra brincar do outro lado do rio; entram na rabeta, levam o cachorro. Os vizinhos chegam de rabeta pra jogar futebol no campinho; as mulheres vão ao culto, entram na água pra pegar a rabetinha, molham o vestido, nem ligam. É tão normal andar de rabeta como seria andar de bicicleta ou de coletivo pra gente. Itacaré é apaixonante para quem gosta de andar, nadar e se divertir com o povo de lá. Ochiiii.
Este blog tem o intuito de apresentar alguns fatos e boatos da aviação. A maioria das histórias foram vividas por mim, enquanto aeromoça, ou enviadas por colaboradores.Participe
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
E o vôo sai...

O suco perguntou para a água, que perguntou para as necessaires, que perguntaram para as toalinhas quentes, que perguntaram para os pães, que perguntaram para as balas, que perguntaram para as cestas de pães, que perguntaram para o bule, que perguntou para a gaveta, que perguntou para o kit bebê, que perguntou para os CHDs, que perguntaram para as refeições especiais, que perguntaram para os trolleys, que perguntaram para a caixa de chá, que perguntou para o lixo, que perguntou para os baldes de gelo, que perguntaram para as refeições do jantar, que perguntaram para as bebidas, que perguntaram para as bandejas, que perguntaram para os amendoins, que perguntaram para as necessaires da volta, que perguntaram para as refeições do café da manhã, que perguntaram para o trolley extra, que perguntou para a auxiliar sete, onde nós vamos? Aí, a auxiliar sete olhou para o auxiliar seis, que olhou para a auxiliar cinco, que olhou para a quatro,que olhou para a CF, que olhou para a comissaria, que passou um QAP pelo rádio e em seguida respondeu que tudo aquilo teria que embarcar.
Então a auxiliar sete deu um jeitinho para o suco, que levou junto a água. O auxiliar seis guardou as toalinhas quentes que se compadeceram do kit bebê e o espremeram juntinho. Em quatro minutos tudo estava ajeitadinho e quando a galley estava OK, os comissários olharam para a cabine e lá vinham seus amigos passageiros, que perguntaram a seus assentos, que perguntaram para as bagagens de mão, que perguntaram para os bins, que perguntaram para a duplicidade de assento, que perguntou para o cartão de embarque, que queria UP Grade, que perguntou para a CI, que perguntou para o despachante, que queria fechar a porta a todo custo. Novamente em quatro minutinhos tudo estava ajeitado e o avião decolou. É sempre assim, com o jeitinho que se dá, o vôo sai.
Então a auxiliar sete deu um jeitinho para o suco, que levou junto a água. O auxiliar seis guardou as toalinhas quentes que se compadeceram do kit bebê e o espremeram juntinho. Em quatro minutos tudo estava ajeitadinho e quando a galley estava OK, os comissários olharam para a cabine e lá vinham seus amigos passageiros, que perguntaram a seus assentos, que perguntaram para as bagagens de mão, que perguntaram para os bins, que perguntaram para a duplicidade de assento, que perguntou para o cartão de embarque, que queria UP Grade, que perguntou para a CI, que perguntou para o despachante, que queria fechar a porta a todo custo. Novamente em quatro minutinhos tudo estava ajeitado e o avião decolou. É sempre assim, com o jeitinho que se dá, o vôo sai.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Dia das crianças

- BIQUIQUETA!!!!
- É bicicleta.
- BIQUIQUETA AULLL .
- Azul , isso mesmo.
Esta foi a reação do Vinícius quando viu sua bicicletinha. O olho arregalou e imediatamente tomou posse daquilo que era seu. Aliás, não soltou mais dela o resto do dia e para dormir teve que encostá-la no colchão. Isso me fez lembrar quando ganhei meu primeiro patins. Fui dormir com ele e minha mãe teve que tirá-lo de mim só depois que peguei no sono. Era um patins inteiro de plástico (correias, base e rodinhas). Cheguei a gastar as rodinhas de tanto que andei. Corria tanto naquela rua Antenor Ferri, que ninguém me segurava. Vários tombos eu levei. Meu joelho vivia em flor. Mas era uma delícia. Meu único sonho era poder ganhar um patins de ferro no próximo ano. (Correias de couro, a base de ferro e rodas de borracha). É porque lá em casa presentes só chegavam uma vez ao ano.
Lá em casa tínhamos limites, tínhamos hora pra comer, hora pra brincar e hora pra dormir. Conhecíamos bem a palavra dificuldade e por isso tínhamos alegria em esperar. Não ter muitos brinquedos nos desenvolveu a criatividade porque transformávamos qualquer coisa em brinquedo. Caroço de manga, por exemplo, depois de muito chupá-lo colocávamos pra secar. Ficavam lindas bonequinhas que dava até pra pentear o cabelo e fazer pintura. Sabugo de milho, dava lindos carrinhos. Bolinhas feita de barro eram ótimas pra acertar nossos alvos. Fora os pés de lata, pernas de pau e carrinhos de rolemã que queimavam o asfalto. Subir em árvores era minha especialidade, principalmente se tivesse algum fruto lá. Eu acho que o nada me ensinou a ter tudo.
E hoje, o que fazem e o que têm nossas crianças??? Têm tudo e não se contentam com nada.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Loucuras para chegar em tempo

Aposto que todo mundo já fez alguma loucura para conseguir chegar em tempo de não levar um N/C. Recebi algumas histórias que valem a pena ser relatadas. Aqui vai a da comissária Carla Lessa, que não trabalha mais conosco, mas deixou sua história registrada. Se você tiver alguma loucura dessas mande pra gente.
Sexta-feira, último dia de aula antes do recesso escolar...
Toca o telefone:
- “Comissária Carla Lessa, por favor,”.
- “Pois não, sou eu”.
- “Carla você foi acionada para fazer um cabide JOI, apresentação 20h05 em CGH e amanhã cedo você volta”.
“Beleza... hoje é quinta, não tem muito trânsito, pego o ônibus das 18h30 em GRU e chego lá 19h30”, pensou. (Isso porque Carla fazia o trajeto contrário do ônibus GRU/CGH, por morar próximo a Guarulhos).
Assim que chegou ao aeroporto de GRU, estacionou o carro, foi até o D.O para pegar uma escala e foi para o ponto de ônibus esperar o das 18h30.
O horário avançou para 18h40 e nada do ônibus aparecer.
- "Moço... o ônibus está atrasado?”, perguntou para alguém.
- “Ah! hoje é sexta-feira véspera de férias, não tem nem hora para chegar".
- “Legal!!! A escala de vôo considerando que eu já estou lá em CGH e eu estou aqui em GRU ainda... ai me Deus! Se eu não chegar a tempo vão descobrir que eu me apresentei no aeroporto errado, vão considerar que agi de má fé. Vou levar uma advertência, seremos todos proibidos de nos apresentarmos em outro aeroporto, vou ter que me explicar p/ Sônia (Gerente de tripulação de cabine da época) e ela não vai nem querer me ouvir... como explicar que eu errei o dia da semana? IMPOSSÌVEL!!!”, Lamentou Carla.
Enquanto ela pensava numa solução, chegou uma amiga e desesperadamente ela perguntou:
_ “Oi Fiona! Vai para onde?
- “To fazendo curso de piloto, em CGH. Tenho aula agora, mas vou me atrasar por causa desse ônibus".
PLIM!!! Uma luz brilhou para Carla!!!!!
- “Vamos comigo. Meu carro está no estacionamento, fico em CGH, você volta com ele, deixa a chave na loja da TAM com as meninas e eu pego com elas amanhã", sugeriu.
- "Vamos pela Radial e pela Salim que é melhor, tem menos carro", disse a amiga de Carla, que conhecia melhor São Paulo.
Lá foram elas... Trânsito andando, as duas batendo papo, lembrando que há poucos dias tinha passado no Fantástico a história de uma comissária que veio de Santos na garupa de uma moto por causa do trânsito do ano-novo, e a amiga ia ao mesmo tempo explicando o caminho alternativo para Carla.
- “Pronto, chegamos na 23 de maio, vai dar tempo.... não! Não vai.... a 23 está parada, já são 19h:30, não vou chegar”, pensava Carla..
Quando já era quase 20h00 estavam ainda em frente ao Hospital da Face. Só por um milagre elas chegariam, mas não dava mais tempo de esperar um milagre.
-"Fiona, vou parar uma moto e vou pedir para ele me levar", disse.
-"Você está louca, não dá. É perigoso", retrucou Fiona.
_ “Não tem outro jeito".
Carla entrou com o carro no meio das pistas e bloqueou a passagem das motos. Ouviu alguns palavrões, mas colocou a cabeça para fora e começou a pedir para alguém levá-la.
O primeiro que parou Carla nem o deixou pensar.
- “Moço me leva até o aeroporto", implorou.
Ele nem respondeu ela já subiu na moto com o porta-casaco e a bolsa. Gritou para a amiga deixar a mala com o pessoal do check-in que eles a entregariam. Carla colocou a mochila do motoqueiro nas costas, sentou-se entre ele e a caixa de entrega e foi ouvindo o barulho de torcida de quem estava nos carros e acompanhava a cena.
- “Aeeee conseguiu..." ou " vai rasgar a saia...", gritavam. (Naquele tempo só se usava saia).
-"Moça! Você é louca, nem me conhece... e seu não te levasse até lá?", perguntou o motoqueiro.
Enfim, 20h00 ela conseguiu chegar.
“Olhei no relógio e vi a temperatura: 15 graus... imagine! não estava nem sentindo.... Prendi o cabelo na redinha e entrei correndo pelo portão de pax... naquela época podia. Cheguei esbaforindo no DO, apresentei-me para a tripulação, com as bochechas queimavam. Contei só para as auxiliares o que tinha acontecido. Além de tudo, descobri que levaríamos uma checadora de extra conosco, portanto tive que engolir toda a adrenalina de uma vez, fazer cara de aeromoça e esperar o avião... que estava atrasado. Passados uns minutos, minha mala foi entregue pelos despachantes. Fui voar como se nada tivesse acontecido”, relembrou.
Sexta-feira, último dia de aula antes do recesso escolar...
Toca o telefone:
- “Comissária Carla Lessa, por favor,”.
- “Pois não, sou eu”.
- “Carla você foi acionada para fazer um cabide JOI, apresentação 20h05 em CGH e amanhã cedo você volta”.
“Beleza... hoje é quinta, não tem muito trânsito, pego o ônibus das 18h30 em GRU e chego lá 19h30”, pensou. (Isso porque Carla fazia o trajeto contrário do ônibus GRU/CGH, por morar próximo a Guarulhos).
Assim que chegou ao aeroporto de GRU, estacionou o carro, foi até o D.O para pegar uma escala e foi para o ponto de ônibus esperar o das 18h30.
O horário avançou para 18h40 e nada do ônibus aparecer.
- "Moço... o ônibus está atrasado?”, perguntou para alguém.
- “Ah! hoje é sexta-feira véspera de férias, não tem nem hora para chegar".
- “Legal!!! A escala de vôo considerando que eu já estou lá em CGH e eu estou aqui em GRU ainda... ai me Deus! Se eu não chegar a tempo vão descobrir que eu me apresentei no aeroporto errado, vão considerar que agi de má fé. Vou levar uma advertência, seremos todos proibidos de nos apresentarmos em outro aeroporto, vou ter que me explicar p/ Sônia (Gerente de tripulação de cabine da época) e ela não vai nem querer me ouvir... como explicar que eu errei o dia da semana? IMPOSSÌVEL!!!”, Lamentou Carla.
Enquanto ela pensava numa solução, chegou uma amiga e desesperadamente ela perguntou:
_ “Oi Fiona! Vai para onde?
- “To fazendo curso de piloto, em CGH. Tenho aula agora, mas vou me atrasar por causa desse ônibus".
PLIM!!! Uma luz brilhou para Carla!!!!!
- “Vamos comigo. Meu carro está no estacionamento, fico em CGH, você volta com ele, deixa a chave na loja da TAM com as meninas e eu pego com elas amanhã", sugeriu.
- "Vamos pela Radial e pela Salim que é melhor, tem menos carro", disse a amiga de Carla, que conhecia melhor São Paulo.
Lá foram elas... Trânsito andando, as duas batendo papo, lembrando que há poucos dias tinha passado no Fantástico a história de uma comissária que veio de Santos na garupa de uma moto por causa do trânsito do ano-novo, e a amiga ia ao mesmo tempo explicando o caminho alternativo para Carla.
- “Pronto, chegamos na 23 de maio, vai dar tempo.... não! Não vai.... a 23 está parada, já são 19h:30, não vou chegar”, pensava Carla..
Quando já era quase 20h00 estavam ainda em frente ao Hospital da Face. Só por um milagre elas chegariam, mas não dava mais tempo de esperar um milagre.
-"Fiona, vou parar uma moto e vou pedir para ele me levar", disse.
-"Você está louca, não dá. É perigoso", retrucou Fiona.
_ “Não tem outro jeito".
Carla entrou com o carro no meio das pistas e bloqueou a passagem das motos. Ouviu alguns palavrões, mas colocou a cabeça para fora e começou a pedir para alguém levá-la.
O primeiro que parou Carla nem o deixou pensar.
- “Moço me leva até o aeroporto", implorou.
Ele nem respondeu ela já subiu na moto com o porta-casaco e a bolsa. Gritou para a amiga deixar a mala com o pessoal do check-in que eles a entregariam. Carla colocou a mochila do motoqueiro nas costas, sentou-se entre ele e a caixa de entrega e foi ouvindo o barulho de torcida de quem estava nos carros e acompanhava a cena.
- “Aeeee conseguiu..." ou " vai rasgar a saia...", gritavam. (Naquele tempo só se usava saia).
-"Moça! Você é louca, nem me conhece... e seu não te levasse até lá?", perguntou o motoqueiro.
Enfim, 20h00 ela conseguiu chegar.
“Olhei no relógio e vi a temperatura: 15 graus... imagine! não estava nem sentindo.... Prendi o cabelo na redinha e entrei correndo pelo portão de pax... naquela época podia. Cheguei esbaforindo no DO, apresentei-me para a tripulação, com as bochechas queimavam. Contei só para as auxiliares o que tinha acontecido. Além de tudo, descobri que levaríamos uma checadora de extra conosco, portanto tive que engolir toda a adrenalina de uma vez, fazer cara de aeromoça e esperar o avião... que estava atrasado. Passados uns minutos, minha mala foi entregue pelos despachantes. Fui voar como se nada tivesse acontecido”, relembrou.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
A visão do assento 7B

Texto que meu amigo Fernando fez pra mim.
Confesso que até a bem pouco tempo nunca dei bola às aeromoças - acho que sou uma exceção entre os fetichistas - elas pareciam uma parte menor naquele mundo dos aeroportos, viagens aéreas, gente falando um monte de idiomas e viajando pra lugares que nunca sonhei existirem.
Aeromoças, comissários e pilotos ocupavam um espaço restrito e bem catalogado em meus arquivos: no arquivo “a”, aeromoças se resumiam a uma admirável estampa pré-fabricada, com os cabelos irritantemente bem arrumados, uniformes impecáveis e adereços igualmente arrumados e padronizados. Isso para não citar a maquiagem, engomadíssima. Parecia uma mulher feita em massa – muito bem feitas, mas idênticas entre si. Tão produzidas e de bom gosto que pareciam anular as qualidades fundamentais das mulheres: as diferenças individuais.
E iguais não só no visual, também no comportamento. Sejam as que atendem as viagens nacionais ou as internacionais (tudo bem, neste tema não sou lá um especialista, mas tenho lá algumas milhas), sempre vi meninas sorridentes e com aqueles irritantes cabelos padronizados ocupando o espaço certo dentro do corte perfeito e do uniforme milimetricamente cortado. Sempre tive a impressão que primeiro faziam o uniforme depois achavam uma mulher (e um sorriso) que entrasse perfeitamente nele.
Com os comissários, a situação seria bem semelhante, com a diferença que sua alma deveria ser a mesma de uma aeromoça: feminina, alegre e sorridente. E até seria fácil de se adequarem, já que seriam aeromoças teoricamente mais sorridentes, já que por serem catalogado como do gênero masculino, os comissários não têm TPM.
Quanto ao resto do pessoal de bordo, aqueles outros sujeitos que entram na cabine, não sei. Mas para ser comandante, o sujeito deveria ter um bom sotaque carioca – sempre – e falar um monte de coisas técnicas com ar blasée pelo sistema de auto-falantes do avião. Nunca soube exatamente o que falavam, mas a tradução para o seu carioquês nativo seria algo do tipo: “Aí, meux irrrmãos, tamox voando a uma caralhada de péx de altura a uma velocidade absurrrda. A temperatura lá fora é muuuiito frria e eu tou aqui pilotando com os doix péx no manche só pra sacanearrr”.
Tudo bem, o comandante deveria ter lá seus momentos de stress, mas nunca vi um que tivesse qualquer sinal de cansaço depois de muitas horas pilotando. Ali, na saída do vôo, sempre estava lá em pé com o maior dos piques se despedindo dos passageiros. Talvez por ser um dos poucos trabalhadores a bordo que não tiveram de fazer aquelas mímicas terríveis para explicar onde estão as saídas de emergência e como é que iriam cair as tais das máscaras de oxigênio que deveríamos colocar no rosto com elásticos (elásticos, aliás, que as aeromoças nunca colocam nas cabeças para não estragarem os minuciosos penteados padronizados).
Bom, tudo isso é como eu via o mundo dos que trabalham dentro do avião. E olha que eu comecei a viajar naquele tempo em que a gente ia apertadinha dentro de um Electra e que as comissárias (acho que só existiam comissárias do sexo feminino naquele tempo) se ocupavam de encher a barriga dos passageiros com mil pratinhos, lanchinhos e sobremesas. Isso mudou, assim como minha visão das comissárias. Acho que o que as humanizou foi uma que um dia deixou cair um pouco de refrigerante em minha camisa. Acho que foi a primeira vez que falei com uma sem que ela sorrisse com aquela cara de Barbie. Pegou paninhos, papéis e mais paninhos até que eu estivesse quase completamente seco. Ela pode ter visto aquilo como um terrível acidente aéreo, mas eu vi como a quebra de um paradigma. Soube que ali havia alguém que se preocupava com outra pessoa e não só uma boneca linda e sorridente a repetir protocolos e procedimentos padrão. Eu juro que até vi alguns fios de cabelo escaparem do indefectível penteado.
Bom, isso foi até conhecer a Lu Tonon. Essa, apesar de já a ter visto “montada” de comissária (e nunca do banco de passageiros, o que é uma pena), acho impossível de ver como alguém presa a procedimentos programados. Cortesia em seu caso é parte do temperamento. Ela não precisa ler nenhum manual para ser simpática e inteligente. Mesmo fazendo a coreografia das saídas de emergência. E olha que a dancinha é bem ridícula.
Confesso que até a bem pouco tempo nunca dei bola às aeromoças - acho que sou uma exceção entre os fetichistas - elas pareciam uma parte menor naquele mundo dos aeroportos, viagens aéreas, gente falando um monte de idiomas e viajando pra lugares que nunca sonhei existirem.
Aeromoças, comissários e pilotos ocupavam um espaço restrito e bem catalogado em meus arquivos: no arquivo “a”, aeromoças se resumiam a uma admirável estampa pré-fabricada, com os cabelos irritantemente bem arrumados, uniformes impecáveis e adereços igualmente arrumados e padronizados. Isso para não citar a maquiagem, engomadíssima. Parecia uma mulher feita em massa – muito bem feitas, mas idênticas entre si. Tão produzidas e de bom gosto que pareciam anular as qualidades fundamentais das mulheres: as diferenças individuais.
E iguais não só no visual, também no comportamento. Sejam as que atendem as viagens nacionais ou as internacionais (tudo bem, neste tema não sou lá um especialista, mas tenho lá algumas milhas), sempre vi meninas sorridentes e com aqueles irritantes cabelos padronizados ocupando o espaço certo dentro do corte perfeito e do uniforme milimetricamente cortado. Sempre tive a impressão que primeiro faziam o uniforme depois achavam uma mulher (e um sorriso) que entrasse perfeitamente nele.
Com os comissários, a situação seria bem semelhante, com a diferença que sua alma deveria ser a mesma de uma aeromoça: feminina, alegre e sorridente. E até seria fácil de se adequarem, já que seriam aeromoças teoricamente mais sorridentes, já que por serem catalogado como do gênero masculino, os comissários não têm TPM.
Quanto ao resto do pessoal de bordo, aqueles outros sujeitos que entram na cabine, não sei. Mas para ser comandante, o sujeito deveria ter um bom sotaque carioca – sempre – e falar um monte de coisas técnicas com ar blasée pelo sistema de auto-falantes do avião. Nunca soube exatamente o que falavam, mas a tradução para o seu carioquês nativo seria algo do tipo: “Aí, meux irrrmãos, tamox voando a uma caralhada de péx de altura a uma velocidade absurrrda. A temperatura lá fora é muuuiito frria e eu tou aqui pilotando com os doix péx no manche só pra sacanearrr”.
Tudo bem, o comandante deveria ter lá seus momentos de stress, mas nunca vi um que tivesse qualquer sinal de cansaço depois de muitas horas pilotando. Ali, na saída do vôo, sempre estava lá em pé com o maior dos piques se despedindo dos passageiros. Talvez por ser um dos poucos trabalhadores a bordo que não tiveram de fazer aquelas mímicas terríveis para explicar onde estão as saídas de emergência e como é que iriam cair as tais das máscaras de oxigênio que deveríamos colocar no rosto com elásticos (elásticos, aliás, que as aeromoças nunca colocam nas cabeças para não estragarem os minuciosos penteados padronizados).
Bom, tudo isso é como eu via o mundo dos que trabalham dentro do avião. E olha que eu comecei a viajar naquele tempo em que a gente ia apertadinha dentro de um Electra e que as comissárias (acho que só existiam comissárias do sexo feminino naquele tempo) se ocupavam de encher a barriga dos passageiros com mil pratinhos, lanchinhos e sobremesas. Isso mudou, assim como minha visão das comissárias. Acho que o que as humanizou foi uma que um dia deixou cair um pouco de refrigerante em minha camisa. Acho que foi a primeira vez que falei com uma sem que ela sorrisse com aquela cara de Barbie. Pegou paninhos, papéis e mais paninhos até que eu estivesse quase completamente seco. Ela pode ter visto aquilo como um terrível acidente aéreo, mas eu vi como a quebra de um paradigma. Soube que ali havia alguém que se preocupava com outra pessoa e não só uma boneca linda e sorridente a repetir protocolos e procedimentos padrão. Eu juro que até vi alguns fios de cabelo escaparem do indefectível penteado.
Bom, isso foi até conhecer a Lu Tonon. Essa, apesar de já a ter visto “montada” de comissária (e nunca do banco de passageiros, o que é uma pena), acho impossível de ver como alguém presa a procedimentos programados. Cortesia em seu caso é parte do temperamento. Ela não precisa ler nenhum manual para ser simpática e inteligente. Mesmo fazendo a coreografia das saídas de emergência. E olha que a dancinha é bem ridícula.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Ah! Se meu quarto falasse...

Não adianta negar. Todo mundo carrega consigo alguma mania revelada tão somente quando se fecha a porta do quarto no hotel de destino. Eu queria ser uma mosca pra ver a mania de cada um. Mas, tenho que me contentar com “a fofoca” nossa de cada dia. Vou tentar relatar aqui algumas coisinhas que ouvi dizer, mas, pra não citar nomes vou fazer com que tudo o que escrevo, acontece ou aconteceu comigo:
“Eu” chego ao quarto e a primeira coisa que faço é jogar o sapato longe; ao mesmo tempo em que vou abrindo a camisa, primeira sensação de conforto. O banheiro me espera e mal tiro a meia, ou a calça para os homens, eu corro aliviar minha tensão na “patente” (nome que se dá, na minha terra, ao vaso sanitário), onde sentada mesmo já vou tirando o laço do cabelo, enquanto sinto a segunda sensação de conforto (Número 1 ou 2). Lá mesmo no banheiro invento de tomar banho na banheira e então começo a inspeção: olho cada milímetro daquela bacia de fibra, que teoricamente teria que ser branca. Então tento; veja bem: tento abrir o chuveiro. Isso porque algumas torneiras são uma incógnita. Em NY, por exemplo, na primeira vez que fui, “eu” não conseguia descobrir como abria aquele raio de torneira. Dei umas pancadas, virei o troço pra todo lado, olhei por baixo, olhei por cima e pra não passar vergonha de ligar pra alguém, resolvi tomar banho de bica. LINDA!
Sempre, quando lembro, tomo banho de chinelo e depois tenho mania de embrulhá-lo no tapete pra secá-lo. Ao sair do banheiro vou catando as peças de roupas deixadas pelo chão, porque minha pressa de sentar na “patente” não me deixou pegar antes. Tem uns que não catam nada não, do jeito que tiram fica. É cueca pra um lado, misturada com o quepe, ou lenço, calcinha e blazer. É uma coisa só.
Bom, mas, continuando: Quando saio do banheiro recebo aquele impacto gelado do ar condicionado, outra incógnita. Uma vez “eu” martelei o botão pra tentar desligar o ar e nada. Isso quando não acontece ao contrário: “eu” tento todas as alternativas possíveis pra ligar o ar e não tem jeito. No máximo ele exala um ar morno e “eu” isolada lá em Macapá no escuro tenho que atravessar os trapiches, com um monte de pererecas endemoniadas saltitando por todos os lados, pra chamar alguém do hotel porque meu telefone também não funciona.
Lá vou “eu” mudar de quarto de chinelo, penoir, bolsa e mala, aproveito e pergunto como liga a torneira. Enfim a paz. Vou tentar ligar a TV, putz, mas ela está na ante-sala e “eu” quero ver tv deitada na cama, o que fazer? Ah! Já sei, vou arrastá-la um pouquinho mais pra beira do raque. HUm, num deu. Mais um pouquinho, quase deu, só mais um milímetro e pronto “eu” consegui derrubar a televisão e arrancar todos os fios da NET. E agora, se “eu” ligar pra recepção eles vão querer saber o que que “eu” fiz. To ferrada. O jeito é tentar, veja bem tentar instalar tudo de novo. Liguei a tomada, beleza, funcionou, mas a TV, na linguagem caipira, ficou assim: “se eu via o vurto, não orvia a prosa, se orvia a prosa, não via o vurto”. O jeito foi desligar e tentar dormir. Veja bem, tentar porque assim que apaguei tudo e encostei a cabeça no travesseiro, comecei a ouvir um poc, poc, poc, poc. Tampei a cabeça e nada, virei de bruço, piorou, ai “eu” quero dormir e poc, poc, poc. Ligo na recepção: “Por favor, tem alguém martelando?” Não. Poc, poc, poc, poc. Será que este barulho é do que “eu”, quero dizer do que você está pensando? Não pode ser, porque fazia pelo menos uma hora que esse barulho era contínuo, ninguém é de ferro a esse ponto. Depois de muito analisar, “eu” descobri que era alguém correndo na esteira, pois a academia ficava bem debaixo do meu quarto. PODE?São tantas “minhas” manias, que ficaria horas contando porque quanto mais tempo “eu” tenho pra ficar no quarto, mais “eu” invento: Faço banho de creme no cabelo; pintura; máscara de pepino ou de La Roche-Posay no rosto; pulo corda; leio livro; assovio; canto; choro; durmo; assisto novela; como, como de novo; telefono, mando mensagem, recebo mensagem, mando de volta; faço depilação, ai, ai são tantas coisas. Faz o seguinte, me conta uma das suas que na próxima eu publico. Um abraçoooooo.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Revezamento 4X100
Se pudéssemos comparar a aviação com uma competição de atletismo, a Ponte Aérea seria a prova de revezamento 4X100m rasos. Depois de todo aquecimento (maquiagem), os atletas (comissários) recebem as instruções (briefing) do técnico (comandante) e vão para a pista (avião). Cada um recebe seu lugar no revezamento conforme sua velocidade. Os mais rápidos abrem ou fecham a prova. No caso dos comissários, as posições são determinadas pela antiguidade.
O preparo no “taco” de largada é muito rápido. Checa equipamentos; checa comissaria; checa livro de bordo; checa vídeo; prepara jornais; prepara balas; prepara café; esquenta o lanche; prepara bebidas; recebe o embarque. Quando o árbitro determina: “A seus postos...” no nosso caso... “Tripulação portas em automático”. Como bom atleta, você fica surdo nessa hora, concentrado e tenta encaixar os pregos da sapatilha no taco. Na aeronave, os olhos passam rapidamente em todas as travas de trolleys e na cabine para ver se todos os cintos estão atados. Quando o árbitro diz “pronto” e o comandante: “Decolagem autorizada”, o atleta levanta o quadril para melhor impulsão; o comissário senta o quadril para não ter impulsão.
Pouuuuu, tiro de largada. Vuuuuuu, turbinas aceleradas. E lá se vão os atletas a passos largos e os comissários a passos curtos, mas a velocidade é a mesma. Ritmo para todos. Muita pressa para alcançar a chegada e a torcida dizendo: “Vocês vão conseguir”, “vocês vão conseguir”. O atleta segura o bastão com entusiasmo para que não caia, o comissário atende o passageiro com dedicação para que ele volte sempre. “Aceita lanche senhora?”. “Alguma bebida senhor?”. “Café?”. E o atleta lutando contra o próprio tempo.
Entre São Paulo e Rio, por exemplo, são trinta minutos de ponte para servir e bem servir cerca de 170 passageiros. Monta trolley, serve todo mundo, recolhe tudo, desmonta trolley, guarda tudo. “Tripulação, pouso autorizado”. Lá embaixo tudo está preparado para a entrega imediata do bastão e para que a segunda etapa saia com a mesma velocidade, mesmo ritmo, mesmo trabalho, até que se vença a corrida na quarta etapa ou na quinta no caso da aviação.
O preparo no “taco” de largada é muito rápido. Checa equipamentos; checa comissaria; checa livro de bordo; checa vídeo; prepara jornais; prepara balas; prepara café; esquenta o lanche; prepara bebidas; recebe o embarque. Quando o árbitro determina: “A seus postos...” no nosso caso... “Tripulação portas em automático”. Como bom atleta, você fica surdo nessa hora, concentrado e tenta encaixar os pregos da sapatilha no taco. Na aeronave, os olhos passam rapidamente em todas as travas de trolleys e na cabine para ver se todos os cintos estão atados. Quando o árbitro diz “pronto” e o comandante: “Decolagem autorizada”, o atleta levanta o quadril para melhor impulsão; o comissário senta o quadril para não ter impulsão.
Pouuuuu, tiro de largada. Vuuuuuu, turbinas aceleradas. E lá se vão os atletas a passos largos e os comissários a passos curtos, mas a velocidade é a mesma. Ritmo para todos. Muita pressa para alcançar a chegada e a torcida dizendo: “Vocês vão conseguir”, “vocês vão conseguir”. O atleta segura o bastão com entusiasmo para que não caia, o comissário atende o passageiro com dedicação para que ele volte sempre. “Aceita lanche senhora?”. “Alguma bebida senhor?”. “Café?”. E o atleta lutando contra o próprio tempo.
Entre São Paulo e Rio, por exemplo, são trinta minutos de ponte para servir e bem servir cerca de 170 passageiros. Monta trolley, serve todo mundo, recolhe tudo, desmonta trolley, guarda tudo. “Tripulação, pouso autorizado”. Lá embaixo tudo está preparado para a entrega imediata do bastão e para que a segunda etapa saia com a mesma velocidade, mesmo ritmo, mesmo trabalho, até que se vença a corrida na quarta etapa ou na quinta no caso da aviação.
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